terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Adeus Ano Velho...

Por: Júnior


Não sei você, mas às vezes eu tenho vontade de sumir…
Sei que não vai dar certo, mas não leio os jornais, não vejo telejornais, não acesso internet. É tanta desgraça, tanta injustiça, tanta gente sofrendo, que penso estarmos tão atolados num mundo de merda que perco esperança no futuro.
Mas não adianta fugir... Sempre tem uma hora que não temos nenhum bom filme pra ver, nem um bom livro, ou ao menos um futebolzinho pra assistir.
Aí acabo vendo o noticiário... Uma senhora chorando porque precisa fazer um exame que seu plano de saúde pago pontualmente durante vários anos não cobre. Um senhor aposentado reclama das horas que esperava para ser atendido. Ele poderia ser meu avô, sua avó.
Estamos acostumados a ver reportagens sobre a saúde pública, pessoas amontoadas em corredores nojentos, mulher dano a luz no meio de baratas.
Telejornal que segue... E também segue a inacabada Primavera Árabe, a Grécia e boa parte da Europa continuam passando o chapéu. O Vaticano se desculpa por mais um caso de pedofilia no Velho Continente, uma eleição fraudulenta na Rússia e a molecada chilena continua botando pra quebrar.
Uma chuvinha de fim de tarde inundou várias ruas paulistanas... A mesma cena de sempre: um carro no meio da lama, famílias inteiras acenando de cima da laje.
Os apresentadores do jornal comemoram a fato do brasileiro estar comprando mais carros e mais celulares. Não sei você, mas eu não acho que maior poder de compra signifique uma vida melhor.
Mais uma comunidade carioca que caiu no conto da pacificação, mais uma greve que só mostram o lado do patrão, uma reportagem pelegaça mostra a movimentação nos shoppings.
O pai que matou o filho, o filho que matou a mãe, a mãe que chora a morte de seu filho atropelado por um boy bêbado. É um clichê do jornalismo moderno; filmar a cracolândia do alto de um prédio.
Às vezes acho que deveria acreditar em Deus, e colocar a culpa de tudo na conta o Divino onipresente, que tudo vê.
Mais duas câmaras de deputados aumentam seus salários. Em Brasília, mais uma MP no mínimo duvidosa, mais um ministro metido em corrupção é demitido, várias votações feitas às pressas para chegar logo as férias... Melhor arrumar alguma coisa pra fazer.

Quem deveria ao menos tentar melhorar nossas vidas... Está mais preocupado em garantir seu Feliz Natal, seu próspero Ano Novo!

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Obrigado Doutor!


Por: Junior


Esse texto não trata de um Corintiano escrevendo sobre um ídolo do seu Clube de coração... E sim um texto em homenagem a um cidadão idealista, inteligente que sempre pensou no bem comum.



Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o Doutor, o Magrão ou o Crates.
Meu maior ídolo se foi no ultimo Domingo.  Eu não sou fã apenas do seu magico futebol, que infelizmente não vi...
Era sim fã do sujeito Sócrates, de seus ideais, da sua maneira de ver o mundo.
Sempre achei uma grande besteira essa relação fã/ídolo. Nunca entendi o porque de endeusar uma pessoa por ela ser talentosa. Só fui entender isso uns 5 anos atrás, num show que nem lembro de quem era no Sesc Pompeia. Encontrei o Doutor Sócrates, e não tive qualquer tipo de reação. Nenhuma palavra, não dei um aperto de mão, muito menos um pedido de uma foto. Fiquei paralisado, boquiaberto, enquanto ele passava por mim.



Sócrates foi único, muito diferente dos jogadores de hoje em dia. Carismático, contestador, politizado, que pensava sempre no coletivo e com um grande espírito de liderança. Fez de tudo para não ser craque, mas o foi.
Nascido em Belém e criado em Ribeirão Preto, Sócrates se formou em Medicina pela USP no campus Ribeirao Preto. Quando jovem, conciliava a vida de estudante com a vida de jogador de futebol, achando que não teria futuro como jogador. Ele dizia que só jogava pra ter dinheiro da gasolina e da cerveja de cada dia.
Ele começou a se destacar pelo Botafogo de Ribeirão Preto, e em 1978 depois de formado, foi contratado pelo Corinthians. 
Fez historia dentro e fora de campo.



Dentro foi Tri campeão Paulista 79/82/83.
Foi capitão da espetacular seleção de 82 que tinha além dele, Zico, Falcao, Cerezo...
Também jogou a Copa de 86. Tinha muita visão de jogo e uma arma mortal: o calcanhar.



Fora de campo, transportou para a estrutura do Clube os novos tempos que sopravam no cenário politico do pais, com um processo de maior participação dos jogadores nas decisoes que os envolviam, a chamada "Democracia Corintiana".
Participou ativamente das manifestações populares em favor da realização de eleições diretas para Presidente, e prometeu que se a emenda em favor da diretas não fosse aprovada no Congresso iria embora do pais.
O Congresso frustrou a todos e o Doutor rumou para a Itália para jogar pela Fiorentina.





Sócrates, nos deixou aos 57 anos. Dificil não lembrar dos mais velhos e mais sábios que dizem que;
"Os bons vão embora. e os maus ficam".



Vai na boa Doutor...
Onde estiver espero que esteja com o braço erguido com o punho cerrado... olhando por "nóis"!



Muito, muito obrigado por tudo Doutor!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O X do problema

Por: Junior

O que significa um simples X pra você?
O valor a ser descoberto numa operação matemática, o lugar onde está escondido um tesouro ou a marca da Xuxa?
Se você é morador da periféria paulistana, o X tem outros significados: desrespeito, truculência, medo...
Há alguns meses a cena é a mesma: moradores de áreas de risco, loteamentos ainda não regularizados ou de áreas por onde passará o Rodoanel, são suprendidos com um aviso de desocupação... as casas são marcadas com um X, numeradas e começam as ameaças constantes. Em pouco tempo tiram todos de suas casas.
É prometido o mesmo que é prometido todos os anos às centenas de familias que tem seus lares destruidos em enchentes ou incêndios de favelas... Algum secretário engravatado, rodeado de microfones, promete que todos serão enviados para algum CDHU, Cohab ou Cingapura. Mas as familias conseguem alguns meses depois o indecente bolsa-aluguel e os "sortudos" que conseguem um teto são enviados para bairros distantes, longe de seus empregos e escolas.

 É Jão... E você ai fofocando no facebook!

 
O deficit habitacional nessa cidade é enorme: moradores de rua, casas beirando corregos ou linhas de trem, é mais do que comum.
As familias que se instalaram em áreas de risco por motivo de segurança devem sim serem retiradas, mas calma ai patrão... não se resolve as coisas na marretada. A administração Kassab acha que esse é o caminho, tanto que hoje 90% dos Subprefeitos são coroneis aposentados. As subprefeituras foram transformadas em espécies de quartéis, o que só faz aumentar o desrespeito com a população. Nos ultimos meses a maioria das ações que tem a participação das subprefeituras foram feitas com altas taxas de autoritarismo, seja no envio da fiscalização de ambulantes, que é tarefa da Guarda Municipal ou na remoção das áreas de risco, lá está a Defesa Civil "militarizada".


O direito de luta por moradia é totalmente válido. Nas últimas semanas, cansados de esperar pelas migalhas do Governo, movimentos de lutas por moradia ocuparam uma dezena de prédios abandonados no Centro da cidade... Prédios publicos que há muito tempo não são usados para nada ou imoveis em que seus donos devem verdadeiras fortunas em impostos.
Triste ver gente criticando os sem-tetos por ocuparem imóveis no Centro. Eles não querem apenas morar no Centro. Uma ocupação na área mais importante da cidade chama muito mais a atenção do que uma ocupação "da marginal pra cá". Eles tem que resistir e não baixar a guarda na primeira migalha que lhes forem jogadas.

 Leis de referencia na luta por moradia:

Capitulo II, Artigo 182 - Constituição Federal
11977/09 - Minha Casa, Minha Vida

 

No começo de Setembro, a Prefeitura ameaçou interditar um Conjunto Habitacional e um Shopping, na Zona Norte da cidade. Foi alegado que eles foram costruidos sobre um antigo lixão, haveria vazamento de gás metano e grande risco de explosão.
Mas não é cheiro de gás que se sente por ali, é sim cheiro da especulação Imobilaria, há anos a administração do Shopping tenta sem sucesso comprar imoveis do entorno para aumentar suas instalações. Na verdade tudo não passou de um teatrinho entre a Prefeitura e o Shopping, um grande blefe... visando colocar panico nos mordores da região, que assustados venderiam suas casas por um preço bem menor do que realmente valem.
Tanto que o tal "problema" foi resolvido dias depois do divulgado, ou seja o lugar ficou mais de 20 anos com risco de explodir e foi tudo resolvido em 48 horas, com simples drenos no solo.
Estranho, não?

 Quem se curva aos poderosos...
 Mostra o traseiro aos oprimidos!
                             (Millor Fernandes)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

USP, Polícia Militar e Sociedade

Por: Beto

A Tropa de Choque, com 400 homens, invadiu a USP essa manhã, levou 70 estudantes para um Distrito Polícial e, até certo ponto, acabou com a ocupação da reitoria, pois não sabemos como os estudantes se organizarão nos próximos dias.

Para muitos, é o fim de um movimento sem sentido, de maconheiros estudantes de humanas, que vivem no micromundo da USP e defendem a libertinagem.

A diferença entre "Universitário" e "Cidadão Comum" (imposta pela própria política educacional do país, excludente) gerou muitas confusões sobre o assunto. Me decepcionei ao ver muitas pessoas emancipadas, esclarecidas, "livres", defenderem a atuação da PM e se posicionarem contra os estudantes.

De que lado você vai sambar, amigo?

http://letras.terra.com.br/chico-science/268822/

Não se trata de uma situação isolada. A Repressão vai "da USP ao Grajaú", como bem demonstra o site Outras Palavras. http://www.outraspalavras.net/2011/11/03/da-usp-ao-grajau-o-fascismo-em-dois-atos/

Sabemos das atrocidades cometidas pela patética PM no Brasil inteiro, todos os dias, principalmente entre jovens pobres, negros e moradores das periferias.

Ir contra os estudantes sob o pretexto de que "a USP é um micromundo" significa defender a Polícia Militar: corrupta, despreparada, com precária formação no Ensino Básico, que declara claramente em seu portal o orgulho de ter combatido os "subversivos" durante a Ditadura Militar.
http://coletivodar.org/2011/10/henrique-carneiro-professor-de-historia-comenta-conflito-envolvendo-maconha-na-usp/

Significa defender, também, a grande mídia, que trata estudantes como "vagabundos", os mesmos que, futuramente, lecionarão aos seus filhos. Exemplo disso, é revista Veja, afirmando que Ana Fani Carlos, geógrafa de refrência internacional tem problemas com sua alfabetização.
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/tag/ana-fani-alessandri-carlos/

De que lado você vai sambar?

Ir contra os estudantes é negligenciar que a falta de segurança no campus é fruto da falta de segurança na cidade de São Paulo. A USP é cercada por uma favela. A favela é gerada pela sociedade excludente. Sociedade que humilha. Por isso morreu o estudante de Ciências Contábeis no início do ano, assim como morreram outros "cidadãos" na noite de ontem, nessa manhã, e agora! com certeza...

Muitos estão defendendo a Tropa de Choque, pois ainda não se familiarizaram com uma tendência social nítida: NÃO SE COMBATE AS DROGAS COM VIOLÊNCIA. O mundo todo demonstra que é preciso repensar a proibição, pensar em diminuir as mortes que são geradas pelo tráfico de drogas no seio de nossa juventude pobre.

Engraçado! FHC, aquele mesmo! do Neoliberalismo e das privatizações. Foi preciso que ele defendesse a discriminalização, se apoiando nos exemplos da EUROPA para que muitos percebessem a urgência disso. Esquecem que o jovem usuário já demonstra isso há anos, apenas na atitude de garantir sua liberdade, de fato, usando.

Por falar em Europa: O povo ucraniano recentemente invadiu não a reitoria, mas sim a sede do Governo! Italianos têm se enfrentado com a Polícia recentemente. A população de Totenhann na Inglaterra provocou caos na cidade sede das Olimpíadas porque a Polícia matou 1 morador. Aqui em São Paulo, a Polícia deve ter matado mais de um, apenas essa semana...

Vocês, conservadores, já que gostam do mundo desenvolvido, poderiam compreender seus exemplos. NUNCA VI O ESTUDANTE EUROPEU SER CHAMADO DE VAGABUNDO.

Isso acontece aqui no Brasil, ou nas recentes manifestações e na repressão ditatorial que ocorre no Chile.

Não se trata de defender estudante maconheiro. Se trata de refletir a diferença entre segurança e liberdade.

Segurança sem Liberdade é prisão! (parafraseando meu amigo Sherek!)
Liberdade sem segurança é barbárie!
NÃO É POSSÍVEL QUE NÃO SABEREMOS EQUILIBRAR!

A discussão ultrapassa os muros do micromundo elitizado que é a USP: Nossa polícia não traz segurança alguma. Traz repressão de atitudes e idéias. A polícia no campus têm abordado os estudantes com hostilidade e nada mas fez do que prender dois jovens que, ao ar livre, usavam a suposta droga atingindo apenas a si mesmos.

Seria demagogia afirmar que a solução está numa sociedade justa, dentro e fora de USP?? Seria demagogia defender acesso pleno à Educação na nossa cidade? Seria demagogia defender distribuição de renda e empregos para que o jovem não recorra ao tráfico e ao crime.

Seria demagogia um ESPAÇO ABERTO para manifestações livres, da arte à música, da opinião política aos debates? Um ESPAÇO ABERTO a quem assume sua situação de usuário de uma substância que há anos tentem satanizar, mas que está presente nos mais diversos setores: da burguesia aos trabalhadores, da ciência à literatura, da arte à medicina.

Se você samba pela polícia na USP, sambará por ela sempre! Samba junto com a mídia e com a sociedade excludente. Quer se ver longe dos "vagabundos estudantes", assim como quer longe o "bandido" - morador da periferia, desempregado. Os estudantes ocuparam a USP. Sem-Teto ocuparam o Centro, Artistas ocuparam Santa Tereza no Rio de Janeiro.
http://www.midiaindependente.org/

E tú, Brutos? SE OCUPA DA TV A CABO!

De que lado você vai sambar?
(parafraseando o companheiro nesse blog, Junior)


                          (imagem compartilhada pelo meu amigo Hércules)


Você samba de que lado fião?????????????

Com certeza: A LUTA VAI ALÉM DA USP.

Se a questão vai além da USP, COMECE VOCÊ!


                                          (imagem de meu amigo Saúva)

sábado, 29 de outubro de 2011

Cidade,Tempo e Temas: Poucas Considerações

Por: Beto

Provavelmente são milhares de motivos levam a pensar sobre a cidade.
Mas há um específico que leva a não pensar:
A Cidade em si.
Viver, locomover-se e digerir as idéias que ela proporciona.

Falta tempo na Cidade.
Pra pronunciá-la. E com certeza são tantos temas pra pensar que parece um só.
A cidade em um único olhar. Certamente deverá ser um olhar complexo, abrangente.
E, com isso, de interminável explicação.
Ou quase inexplicável.

Talvez esse seja o mais perverso efeito da Cidade.

Novas dicas de som postadas.
Enquanto NÃO penso sobre a Cidade.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

De Templos em Templos

Por: Beto

Sempre há um momento em que você reza.
E não te digo isso na demagogia irritante daquelas frases feitas do tipo “querendo ou não...”, “na teoria é uma coisa, na pratica é outra...”
Digo que, em vários momentos do seu dia, você reza.
E mais: Você louva.

Para confirmar essa idéia, repare nos exemplos dos templos da metrópole.
Por qual você já passou?
Qual deles você já entrou?
Freqüentou um mês, ou anos?
Qual deles já te vez sentir prazer, poder, tristeza, angústia, medo, resignação...
Lembra-se daquele que te deixou mais paralisado? Foi pelo tamanho, forma, cheiro, cor, som ou imagens?



Proponho um desafio: um templo por dia na metrópole.
Com uma única condição: a curiosidade.
Nada mais.
Não quero aqui me lançar como um ateu, um materialista, incrédulo. Nem tampouco questionar a fé de cada um desses templos, generalizando-os.
Penso justamente o contrário. Proponho conhecer os Deuses! Os Cantos.
Cada canto de umbanda. Cada altar, cada paróquia.
Cada Sermão, palestra ou debate.
Cada show da fé ou Mesquita.
Cada meditação ou ritual.


Imagine o arranjo musical se tocassem juntos os músicos de todos os templos da cidade? Passaríamos de tambores a teclados, com toques de guitarra e cantos gregorianos.
Arranjos...
Imagine uma energia conjunta de todas essas vibrações, louvores e orações.
Você que freqüenta templos, pense na hipótese: um templo por dia na metrópole.
Só pra variar.




Tema que soa polêmico.
Dá vontade de encurtar as frases. Encurtar os parágrafos. Para não “blasfemar” ou contrariar ninguém.
Inclusive, quantas vezes se pronuncia que “com religião não se brinca”, e que “ela não se analisa”. Quantas vezes repetimos que apenas se sente, ou se compreende. Concebe-se. Jamais se discute...
DEUS!
Quem pode responder? Jamais.
Jamais é essa minha proposta. Nem muito menos o desdém de dizer que não há o que ser explicado.

Só fica a vontade de saber quem ergueu tantos templos nessa cidade. Tantos que na vista da minha janela há dezenas. Na TV, no pensamento, na mídia, na internet, no discurso, na ética.
Religiões do mundo todo.
Presentes nessa metrópole. Tendências cada vez mais amplas a seguir.
Aquelas que se destacam, e as que se fragmentam. Aquelas que pouco se nota e até mesmo algo próximo de seitas...
Da pra ouvir a voz do paulistano orando. Do Brasileiro, de todos nós.
Inclusive por todos os anseios dessa cidade e desse país que nós já conhecemos.
Não se trata de discutir o conteúdo dessas orações,
E sim de enxergá-las. E respeitá-las.
Até mesmo não interagir com elas. Senti-las.
Curtir! Comentar, debater.
Falar o que quiser!
O que há?
Receio?



Um acréscimo para aqueles que nunca pisaram num templo dessa cidade.
Que não tem isso como hábito e não procuram conhecê-los.
Cabe mencionar tantos outros templos que aqui se avista: escolas, empresas, universidades, shoppings, edifícios. Casas.



Estruturas, regras, ética, hierarquia.

O morador da cidade se ancora. E ora.
Louva.
De templos em templos.


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sou daqui...

Por: Júnior



Nasci, cresci,"estudei", trabalhei, fiz amigos, inimigos, me dei bem, me fudi... tudo aqui!
Nunca passei muito tempo longe dessa cidade.
Dizem que juntando a Região Metropolitana, somos 20 milhões de habitantes ou melhor 20 milhões de "amontoados".
Trânsito, caos, violência urbana, poluição, enchentes, stress, transporte público cada vez mais lotado e caro, desigualdades, pontes estaiadas que servem mais para "embelezar" os cenários da Globo do que para desafogar o trânsito... tudo isso é típico do dia-dia de um paulistano, mas quem é esse paulistano? Em que bairro ele mora?... Impossível de explicar!

Ele pode ser o senhor que tem uma barbearia há mais de 40 anos perto da Pça da República, ou a negra que trança cabelos na galeria do rock. Pode ser os "manos" que trabalham nas barracas de flores da Dr. Arnaldo ou do Lgo. do Arouche, o rapaz que deixa balas no seu retrovisor em algum cruzamento ou até o aposentado que ganha um extra trabalhando de plaqueiro na Barão de Itapetininga.

Penha, Itaquera, Aclimação, Sapopemba, Tatuapé, Butantã....

Ele pode ser o imigrante que é Chefe de restaurante, o jornaleiro que tem uma banca em frente a um prédio ocupado por sem-tetos na Av. São João. Os nigerianos que ficam fazendo sei lá o que na Av. Rio Branco. Os pichadores que escalam prédios para fazer sua arte. A moça de 20 e poucos anos, moradora de Ermelino Matarazzo que deixa os 3 filhos com sua irmã de 13 anos, porque não conseguiu vaga na creche, ou a "mina" da mesma idade moradora dos Jardins que passa o dia todo passeando no shopping, ou até o estudante de alguma Uni... qualquer coisa que fala um "paulistanês" típico da Moóca.

 Pirituba, Piqueri, Perus, Pery, Pari, Pinheiros...



O japonês que frita pastel numa feira livre da Casa Verde, o baiano morador do Itaim Paulista que prepara sushi em Moema, ou o "mano" do churrasco grego no Lgo 13. O português da tradicional padaria da Consolação. O vendedor de uma ótica que aborda um bancário apressado na Rua São Bento. O cara da Pompéia que vai até a Vila Olímpia ouvir "putz-putz" e pagar 20 conto numa vodka, ou até o cara da Brasilândia que "trampa" num telemarketing na Barra Funda e "cola" num funk há poucas quadras de casa e toma "maria-mole" de 2 conto.

 Jabaquara, Jaguaré, Jaguara, Jaraguá...

Bolivianos escravizados por coreanos, o pipoqueiro da Pq. da Água Branca, o assassino que virou pastor, o chinês que trabalha junto com nordestinos na 25 de Março. O ascensorista que nas horas vagas é "camisa 10" na várzea, a frentista que no Carnaval é rainha de bateria. O paraense que limpa vidraças no Itaim Bibi, o maranhenense que acaba de chegar para dar um "trampo" na construção civil ou até o PM que vai numa biqueira em Heliópolis pegar o "arrego" da semana.

 Tatuapé, Cachoeirinha, Santana, Grajaú...

A estatua viva do Viaduto do Chá, os milhares de engravatados "bem-sucedidos" que andam apresados pela Avenida Paulista, a baiana que frita teus quitutes na Pça da Sé, o "basqueteiro" que bate uma bolinha onde era o Carandiru, o empresário que treina para a São Silvestre no Ibirapuera. O catador que separa e leva para reciclagem seu lixo, porque você não tem "paciência" para fazer isso, ou o "mano" que fuça seu lixo procurando alguma coisa para comer. A garota que vem do interior estudar na USP, ou o cara que faz o caminho inverso e se forma no interior. Ou até as mães que vão visitar os seus filhos no Centro Provisório do Belém ou em alguma unidade da Fundação CASA.

Freguesia do Ó, Tucuruvi, Pompéia, Ipiranga, Limão...

Como diria Mano Brown... Ratatatá, mais um Metrô vai passar.
Com gente de bem, apressada, católica. Lendo jornal, satisfeita, hipócrita.
Com raiva por dentro, a caminho do Centro.



Centro dos adictos, que dividem espaço tranquilamente com os "mano" das carroças de papelão pelas ruas da Cracolândia, ou o hippie que tenta vender seu "trampo" no Anhagabaú.. Pode ser as meninas que de uma hora para outra ficaram "famosas" por praticarem pequenos furtos na Vila Mariana. Os quatro operários que disputam uma animada partida de truco no último vagão do trem. As duas diaristas que indo para a casa da patroa no Sumaré discutem o último capítulo da novela. O judeu que anda de cabeça baixa pelas ruas de Higienópolis ou até as mulheres que se "vendem" no Lgo do Paissandu ou no Pq. da Luz.

 Capão, Paraisopolis, Santa Cecilia, Remédios, Canindé...

Pode ser o mano que "cuida" do seu carro no Morumbi, a garotinha que tenta ti vender chiclete enquanto você toma uma gelada na Vila Madalena, as sacoleiras da feira da madrugada no Brás ou o vendedor de DVD pirata no Viaduto Santa Efigênia, a italiana que prepara a "pasta" em alguma cantina do Bixiga ou até o mano que é acordado as 4 da manhã porque a ROTA achou "prudente" matar 6 caras que tentavam arrombar um caixa eletrônico no seu bairro.

Taipas, Lapa, Jd. Brasil, Saúde, Bela Vista, Perdizes, Vila Guilherme...

Rua Augusta, punks, skins... varias tribos, e até uma procissão cristã as 2 da manhã.
Pode ser o motoboy que corta a cidade a semana toda e no fim ganha um extra entregando pizza. O caminhoneiro que fica horas preso no trânsito  porque a prefeitura achou "interessante" fazer um corrida automobilística numa segunda chuvosa na Marginal Tiête. O médico, o vigia, o taxista, o advogado que se juntam num animado "porópópó" numa tarde fria no Pacaembu, o comerciante que arruma tempo pra tocar numa banda, ou a professora que está internada porque dar aula cada vez mais mexe com seus nervos, ou até o nortista que na Rodoviaria do Tiete está voltando pra casa desiludido, mais consegue levar um microondas e uma TV pra sua mãe.

Eu esqueci de muita, muita gente...
A imagem dessa cidade se modifica conforme as lentes que utilizamos. O sonhado e o real, o desejado e o rejeitado, vivido e simbolizado, o cantado e o pintado, o desvairado e o cotidiano; múltiplas facetas de uma cidade/país.
Falar dessa cidade e não cair nos "clichês" é meio difícil...
Selva de pedra, terra da garoa, cidade que não para, locomotiva do Brasil, todos os sotaques... Todas as raças, cidade que abraça todos de braços abertos.



Vivo dizendo que tô de saco cheio de morar aqui, que qualquer dia largo tudo e vou embora.

 
 Mais será que consigo viver sem tudo isso?